Há infelicidades tramadas.
Neste momento temos uma dessas, a de não ter governantes à altura do país.
Numa entrevista, o sr. Ministro da Educação falou em privilégio de frequentar o ensino superior e na injustiça de todos termos que o pagar.
Não disputo essas crenças e convicções, cada um terá as suas, alicerçadas nas suas perspetivas do mundo, fruto de dinâmicas sociais e psicológicas próprias. Não disputo quem acredite que o ensino superior é um privilégio, ou seja, de acordo com o dicionário:
privilégio
(pri·vi·lé·gi·o)
nome masculino
1. Direito ou vantagem concedido a alguém, com exclusão de outros.
2. Título ou diploma com que se consegue essa vantagem.
3. Bem ou coisa a que poucos têm acesso.
4. Permissão especial.
5. Imunidade, prerrogativa.
6. Qualidade ou característica especial, geralmente positiva. = DOM
“privilégio”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2025, https://dicionario.priberam.org/privil%C3%A9gio.
Acontece que o país não precisa desta visão neste momento. Portugal precisa de quem tenha visão para crescer e desenvolver o país. Precisamos de mais conhecimento, mais qualificações, precisamos de ir para o mundo e marcar uma posição. Não me apetece lá muito ser um país de chapéu na mão, estendido à espera da gorjeta que o sr. americano-da-Flórida-sem-vacinas cá vem deixar ou outros semelhantes.
Se calhar, esta gente que tanto gosta de empresários, deveria falar um bocadinho com os empresários lá do estrangeiro e perceber a forma como admiram as nossas qualificações e os nossos profissionais.
Também não precisamos, neste momento, de quem não perceba a solidariedade social. Já nem vou por questões moralistas, humanistas ou económicas. Mas, em linguagem que eles percebam, é triste ver um governo que não compreende a vantagem competitiva na solidariedade social assente num chapéu-de-chuva do conhecimento técnico promovido pelo Estado, para desenvolver uma economia que tem poucos recursos à partida.
Temos que nos libertar deste tipo de governantes; deixar para trás gente que não consegue perceber o potencial de desenvolvimento de país e que prefere que sejamos miseráveis. Porque é disso que se trata.
E isto nem mete raiva, é só triste.
Se calhar é de investir mais nas Humanidades – que tanto detestam – para se lembrarem de Camões:
«”Do justo e duro Pedro nasce o brando,
(Vede da natureza o desconcerto!)
Remisso, e sem cuidado algum, Fernando,
Que todo o Reino pôs em muito aperto:
Que, vindo o Castelhano devastando
As terras sem defesa, esteve perto
De destruir-se o Reino totalmente;
Que um fraco Rei faz fraca a forte gente.»
Cá estamos, cá estamos «Que um fraco Rei faz fraca a forte gente.»
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